20.10.12

Há tempo para todo propósito debaixo do céu

  Luiz acordou as 8:00 da manhã, escovou os dentes, tomou uma xícara de café e ligou para sua namorada, Julia.
  Mônica acordou às 8:05, atrasada. Correu para o banheiro, lavou o rosto, passou uma maquiagem básica, escovou os dentes, trocou de roupa e começou a preparar sua lista de tarefas para o dia.
  Evandro não sabe que horas eram quando acordou. Dormiu em baixo de uma escada e teria que andar até a praça para saber as horas. Seu estomago doía devido à fome, e ele procurava algum canto mais escondido para poder urinar.
  Luiz estranhou o fato de Julia ainda estar dormindo quando ele ligou. Ela lhe falou que tinha ficado acordada até as 5 da manhã fazendo o trabalho da universidade. Eles começaram uma briga bem feia. Ela já tinha feito isso antes e o resultado foi um desmaio no emprego. Luiz, sempre preocupado, encheu o saco dela e pediu que não fizesse mais isso, mas de vez em quando ela fazia, e eles sempre brigavam.
   Mônica ajeitou sua agenda e antes de sair resolveu que trocaria de roupa e iria de vestido. Na bolsa, 2.000 reais aguardavam para ser aplicados como entrada na casa própria que ela e o namorado iriam morar daqui a 3 meses, quando casariam. Depois de tantos relacionamentos infrutíferos, Monica finalmente encontrou o cara especial que sempre sonhou, e conseguiria casar-se antes dos 25, como pretendia.
  Evandro procurou em algumas lixeiras algo para comer. Encontrou bordas de pizza e um pão mofado. Começou a encaminhar-se para a praça onde pediria alguma esmola. Suas costas ainda doíam por causa das bordoadas que levara da policia no dia anterior. Evandro entrou no mundo das drogas aos 15, e aos 18 fugiu de casa e passou a viver nas ruas, sem perspectiva nenhuma, furtando coisas aqui e ali, e gastando quase todo o dinheiro que conseguia em seu vício.
  Luiz saiu de casa extremamente irritado. Estava com uma cara tão feia que até os cães da vizinhança se recusaram a latir para ele. Julia havia desligado o celular dizendo que ele não tinha o direito de controlar a vida dela. “Mas é pro próprio bem dela, cacete!”. Ele estava tão transtornado que nem conseguia divisar seus pensamentos. Ignorou, inclusive, o perfume da bela moça que ia à sua frente na calçada.
  Mônica estava radiante. Seu vestido esvoaçava ao caminhar. Mesmo um pouco atrasada, teve tempo pra passar seu melhor perfume e saiu da quitinete alugada caminhando rápido, extremamente feliz, pois carregava na bolsa o inicio de um nova vida, que teria muitos desafios, era verdade, mas que seria muito recompensadora. Até as árvores da praça pareciam estar mais verdes, mais vivas.
  Evandro vagava à esmo pela praça, pedindo esmolas pra quem ele achava que poderia dar. Revoltado com as constantes negativas, resolveu que hoje faria uma coisa que havia tempos tinha deixado para trás: assaltaria alguém. Olhou para os lados procurando uma vitima e logo encontrou. Uma moça de vestido rosa claro, com rendas, carregava uma bolsa no braço direito. Era muito bonita, e parecia feliz. “Me desculpe moça, mas vou ter que estragar seu dia um pouco. Só preciso dos vinte reais que você deve ter na carteira, nada mais”. Ele começou a disfarçar e a colocar-se no caminho dela. Todas vez que assaltava alguém sentia-se um traste, mas infelizmente, às vezes era a única saída.
  Quando Evandro ia esticar o braço para agarrar a bolsa da garota, viu que atrás dela vinha um rapaz alto e de expressão firme, com o rosto tão deformado pela raiva que parecia um oni ou algum outro monstro. Evandro sentiu todo o peso daquele olhar e um medo incontrolável se abateu sobre ele. Sentiu-se sujo, envergonhado e indigno. Tinha sido olhado como um ser asqueroso. Mas afinal, não foi nisso que se transformou? Evandro ficaria pensando por muito tempo naquele olhar durante o dia, e decidiria que nunca mais seria visto daquela forma. Mudaria de vida com toda certeza.
  Luiz passou pela praça pisando firme e bufando, fez cara feia pra um mendigo maltrapilho que se atravessava em seu caminho e em pouco tempo chegou no trabalho. Seu dia se resumiu a pensar em como Julia era idiota de vez em quando.
  Mônica passou pela praça sem nem notar que quase fora assaltada. Estava tão radiante que pareceu entrar flutuando pelo banco, onde depositou o dinheiro na mesa do gerente e assim iniciou uma nova etapa de sua jornada.
  No fim das contas, neste emaranhado de vidas e destinos, a grande heroína foi Júlia, que dormiu até o meio-dia e depois foi trabalhar, com as pálpebras pesadas, com dor de cabeça e com raiva de Luiz, aquele grosseiro, imbecil.

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