24.10.13

01 - Akira, o macaco que sobreviveu ao mundo


Nada como um dia ensolarado de inverno pra fazer as pessoas saírem de casa no domingo. Naquele dia, quando o mundo começou a cair, a principal atração era a festa de 501 anos da fundação do Jardim Zoológico de Londres. Animais sempre fizeram a alegria das pessoas, e não seria diferente naquela tarde. 
     A população esforçava-se para se manter firme, mesmo com o mundo se esfarelando e apodrecendo. Era o velho jeito britânico de manter-se calmo e seguir em frente. 
Muitos daqueles animais só existiam ali, replicados e mantidos através de experimentos genéticos. Filhos da ciência. Novos animais eram criados ali também. A principal atração do dia era a primeira aparição publica do macaco Queeno, uma mistura de colobo com langur cinzento. 
Os sorrisos estavam nos rostos e o céu estava limpo, coisa rara para a cidade cinza. Não parecia que o mundo estava envolvido em uma guerra global. Não parecia que toda a população da América do norte estava morta, ou morrendo, e não parecia que o vírus iria se espalhar pelo mundo inteiro. Afinal, se nenhum barco ou avião vinha das regiões infectadas, e ninguém ousava pisar lá, não deveria haver riscos. 
As pessoas se esforçavam para continuar com a cabeça erguida. Sabiam que o fim chegaria, era inevitável, mas por ora, ver o pequeno Queeno saracoteando pelo parque adiava aquele momento. 
Perto da hora do chá, as pessoas ouviram sons estranhos. Chiados agudos, vindo de longe. Os mais atentos conseguiram ver pequenos objetos negros cruzando os céus, e iniciaram uma onda de tumulto e pânico. Porém, depois de momentos de caos, as pessoas perceberam que não estavam havendo explosões. O que não diminuía o medo de ser atingido pelos objetos, que continuavam caindo, cada vez mais perto. 
O primeiro míssil a cair no zoológico atravessou o corpo de um elefante, fazendo chover sangue nas pessoas próximas. Logo outros misseis choveram do céu, reiniciando a correria. Algumas pessoas foram atingidas e morreram na hora. Mal sabiam elas que tiveram sorte em morrer dessa forma. 
Os misseis não explodiam, apenas se quebravam. De seu interior uma névoa se erguia e logo se dissipava no ar. As pessoas mais próximas logo começaram a sentir náuseas, e gotas de sangue passaram a brotar de todos os seus poros. Os misseis não eram explosivos e não estavam com defeito. Eles serviam para espalhar o vírus. 
Muitas pessoas tentaram correr e se trancar em seus carros, mas logo o sangue também brotava de seus corpos e elas iam ficando cansadas, com sono, até que não abriam mais os olhos. A Inglaterra não estava abertamente em guerra com nenhuma outra nação, então qual o motivo dos mísseis? Seria um ataque terrorista? 
Nenhuma destas perguntas seria respondida. 
Os animais se assustaram e começaram a correr pelo local. Poucos foram afetados pelo vírus. Alguns animais pequenos ficaram doentes, outros não. Animais de grande porte, como tigres e búfalos, morreram com a queda dos mísseis, mas a névoa não os atingiu. Primatas, grandes ou pequenos, tiveram o mesmo destino dos humanos presentes no local. 
Menos um. 
Debaixo dos restos de um gorila atingido, aparecia um par de pequenas mãozinhas. Estavam estendidas, inertes. De repente, seus dedos se retesaram e agarraram o chão. Fizeram muita, muita força, até que uma pequena cabeça de macaquinho com pelos em preto e branco surgiu, tossindo e manchada de sangue. O pequeno filhote de queeno emergiu coberto de sangue e machucado, e olhou ao redor. O silêncio era quase completo. Apenas se ouvia a respiração pesada dos animais sobreviventes, bastante assustados. 
O macaquinho saiu de perto do cadáver e caminhou pelo parque. Viu muitas pessoas mortas. Aquele cheiro adocicado e ferroso de sangue estava impregnando o ar. Achou graça em duas pessoas que estavam sentadas em um banco. Eram um macho e uma fêmea. Os dois estavam cobertos de sangue, de maos dadas e se olhando nos olhos. O que eles estariam fazendo? Seria alguma brincadeira? 
Percebeu, assim como os outros animais, que eles agora podiam andar livremente. Alguém abriu todas as cercas e portões. 
queeno saltou de alegria, e tratou de sair bem rapidinho dali, pronto pra descobrir todo um mundo de novidades. Um mundo que ele não sabia que estava se desmanchando. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário