9.4.12

O tédio do Nada


 Um dia o nada ficou cansado de sua mesmice eterna e resolveu mudar. Começou a fazer força e dividiu sua não-existência, negra e opaca, em duas manifestações de vida diferentes: Azul e Vermelho.
 Cada parte levava em sua mente exatamente a metade do conhecimento infinito do antigo Nada. Demorou algum tempo até que os dois seres se dessem conta de suas próprias existências. Examinaram atentamente o movimento que suas mãos faziam, o pulsar de seus pulmões e acharam graça no fato de que, quando fechavam os olhos, tudo escurecia, e eles enxergavam, de certa forma, o que já foram um dia.
 Passados alguns instantes, um olhou para o outro. Apaixonaram-se instantaneamente e passaram a observar-se. Viram como eram diferentes, e perceberam que conseguiam captar em sua própria mente apenas parte da totalidade que um dia já partilharam, e que algumas coisas estavam obscurecidas. Vermelho sentiu-se atraído por Azul, que, apesar de tímida, também quis chegar mais perto dele. E então sem saberem o que estavam fazendo, beijaram-se. No momento que seus lábios se tocaram todo o conhecimento se viu reunido mais uma vez, e o cosmo brilhou. Dançaram, pularam e se beijaram muitas vezes, e dessa festa aos poucos foram nascendo Marrom, Amarelo, Prata, Verde, Lilás, e quanto mais mentes nasciam, mais seres entravam na dança e, consequentemente, mais o conhecimento se diluía. E então os seres passaram a se misturar para formar coisas novas, e dessa forma, naquele dia, toda a existência material foi criada.
 Até que um ser nasceu sem vontade de dançar. Preto observava a festa de longe, sem participar. Possuía muito mais da essência do antigo Nada do que qualquer outro ser, e seu conhecimento apenas não superava o dos Primeiros: O grande Vermelho e a magnífica Azul. Entediado, procurou alguma coisa para brincar sem ter que interagir com ninguém. Achou uma bola colorida num canto, e viu pequenos multicoloridos vivendo nessa bola. Percebeu que eram todos sorridentes e jovens, e percebeu também que eram obra dos seres da festa. Encaixado na bola, estava uma roda e, no meio dessa roda, havia um botão. Preto não queria ver ninguém entediado como ele, e para ajudar os multicoloridos, que estavam condenados a viver eternamente, sempre felizes e jovens, numa mesmice chata e sem dinâmica, apertou o botão que fez a Roda do Tempo começar a girar. Depois virou-se e foi observar a festa outra vez.

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