14.9.15

Lurdes e a Janela

Um, dois, tres carros pretos passando um atrás do outro. Estranho, pensou Lurdes. Ela já havia visto alguns cortejos fúnebres, mas ela não pensava que aqueles carros faziam parte de um. Pode ser a máfia, pensou lembrando do O Poderoso Chefão que seu pai assistiu com ela.

O mundo deve ser estranho, pensava Lurdes enquanto tomava banho. A janela de seu quarto no sétimo andar era a única visão que ela tinha do mundo externo ao seu apartamento.  Ela gostava de morar no alto. O som do vento era muito agradável, embora sua janela lacrada nunca a tenha deixado senti-lo.

De sua janela Lurdes via pessoas, pássaros, nuvens, insetos, sujeira, prédios e arvores. Como deve ser boa a sensação de voar, pensava, e que cheiro deve ter um cachorro, imaginava.

Tinha um casal que sempre se beijava na entrada do prédio, igual nos filmes. Mamãe disse que nunca poderei beijar, falou sozinha, as bactérias poderiam me matar.

Quando comia seus sanduíches tratados, nas pausas dos filmes, Lurdes olhava para o prédio da frente. Havia um garoto muito bonito em um dos apartamentos. As vezes ele tirava a camiseta com a janela aberta. Ela o viu com algumas garotas algumas vezes, e ela sempre o via chorando e cortando suas próprias costas.

Mas ela era doente. Não poderia ter aquilo.

Era doente e tinha uma janela.

Lurdes cada vez mais lamentava que sua janela não se abria.

Ela queria poder sentir o mundo com a intensidade que o garoto do prédio da frente deve ter sentido quando ela o viu se atirar de seu quarto.

31.5.15

Uma noite solitária de sábado

    Numa solitária noite de sábado, dopado por antigripais e remédios para dor de cabeça, o rapaz liga a tv em um canal qualquer, e está passando Superman - O retorno, e em seguida, Lanterna verde. Ele dá uma bufada e se desconecta.

    Tem aquela sensação típica de quem está entediado: vontade de fazer alguma coisa, mas nada pra fazer. Porém, cum um leve giro de cabeça pelo quarto, ele pode ver pelo menos uma meia-dúzia de     coisas para se ocupar. Mas destas, ele não quer saber.

    Para e ouve os sons da rua. De vez em quando um carro passa em uma velocidade absurda para uma rua de área residencial. A rua fica perto da rodovia, e talvez alguns motoristas não saibam onde começa uma e termina outra, coitadinhos.

    A menos de trinta metros dali, uma lanchonete paira na esquina. Não tem nem um ano em que o ele mora na quitinete, e ele já está acompanhando as desventuras do terceiro gerente do lugar. Simplesmente não tem movimento. É um bairro que tem 1) Pessoas com algum dinheiro mas não frequentam o lugar, e 2) pessoas pobres que, obviamente, também não frequentam o lugar. A questão é que o ultimo dono fez um grande investimento. Colocou fachada luminosa e deu uma nova pintura. Tudo muito bonito, de fato, mas não vai adiantar. Agora o rapaz ouve uma dupla de cantores ruins entoando sertanejos de todas as épocas possíveis com o acompanhamento de um violão. Na falta de talento, um dos rapazes berra, na esperança de atingir a nota correta. Quando olhou de sua janela na ultima vez, haviam oito pessoas nas mesas.  Três delas eram o novo dono e sua equipe.
    
    Isso o fez pensar em algumas horas atrás quando estava no shopping. Existe um tipo pior de cantor de barzinho. É aquele cara que não tem talento nem criatividade, então, canta musicas de inúmeros artistas. Não contente, ele canta as musicas de tais artistas de uma forma descompassada e sem ritmo, pensando estar inovando, estar sendo inventivo. A única coisa que as pessoas poderiam tentar fazer, que é cantar junto com o pretenso artista, se torna impossível. Patético.

    Mais triste que a situação da lanchonete, é a do bar, logo em frente, na outra esquina. Este, ao contrario, está cheio. Universitários adoram pensar no bar como um local de livre pensar, com cerveja barata, garotas bonitas e musica interessante. É a falsa idéia de boemia, coisa de burguês. Pode até ser verdade, mas passa longe do que é um boteco de bairro, no meio do nada. Os homens que estão ali não estão batendo papo, só estão enchendo a cara. Alguns se divertem, jogam sinuca e vão pra casa numa boa. Mas com certeza, pelo menos um dos alcoólatras dali vai chegar em casa e seguir o roteiro: Abrir a porta aos trancos. Abrir a geladeira procurando algo pra comer. Acordar a mulher, as três da manha, mandando ela fazer alguma coisa pra ele comer. Ela o manda à merda. Ele tropeça até o quarto e a puxa pelos cabelos, dizendo que quando ele manda, ela obedece. Ela chora e faz um omelete qualquer com boas doses de cuspe enquanto ele vomita no banheiro. Ele vem, come sem saborear e vai pra cama, onde ela soluça e remói. Ele vai pegar a mão dela e apertar sobre seu pinto. Ela vai tirar rápido e o mandar fazer bom uso de seu rabo. Ele vai dar uma cotovelada nas costas dela, deitar de lado e dormir.

    Nada boêmio. Nada poético.

    Que Deus me livre de um dia ter que ganhar a vida vendendo a tristeza por litro. Longe do bar, tantas e tantas pessoas passam frio em seus casebres, arrasados pela ultima enchente. Alguns provavelmente passando fome. Uma boa quantidade de pessoas do bairro não passa por estes apertos, mas está igualmente infeliz, por outros motivos. Cada pessoa tem sua cela particular no inferno da mente.

    O rapaz olha para a tv e se contenta. Para de reclamar. O lanterna verde é um bom personagem, da pra ver o filme. Podia ser pior.


    Podia ser crepúsculo.

8.5.15

10 - O Menino que Espirrava Trovões! - Férias e Homem-do-Saco

     Férias escolares costumam ser uma época que todo mundo adora. Só não é muito agradável quando você viaja para encontrar um primo que você não conhece muito bem. Piora quando você vai ficar longe daquela garota que você gosta, e na adolescência, esse fato toma proporções muito maiores. Medo da garota esquecer seus sentimentos, medo de que apareça um outro rapaz na área... 
     Menino estava com todos estes medos. Ele ficaria mais tranquilo se soubesse que Arco também os sentia. Não aconteceu nada entre eles, no entanto... 
      Seus pais sentaram juntos em um banco do ônibus, e o garoto foi sentado sozinho, no banco da frente. Menino observava os outros carros na rodovia, pensando sobre seus ocupantes. Um casal de velhinhos viajava tranquilo, num carro todo enferrujado. A senhora fazia tricô e movia sua boca sem parar, sabe-se lá Deus qual era o objeto de seu monólogo. O senhor, boné de candidato político na cabeça e óculos fundo-de-garrafa, dirigia quase debruçado sobre o volante, parecendo fazer força para enxergar a estrada que ia a frente. Um outro carro levava três rapazes jovens. Um som rasgado de guitarra escapava de suas janelas, e eles pareciam rir. Num outro carro, um casal discutia nos bancos da frente, e atras duas crianças se estapeavam. Menino se incomodou com a cena e olhou para o lado contrario.  
      Um matagal se estendia pela lateral da estrada, sendo substituída por galpões de empresas e postos de gasolina em alguns trechos. Os pensamentos de Menino voltavam até Arco a todo instante. Em determinado trecho a praia pode ser vista. Menino não se lembrava de já ter entrado no mar. Imaginava como deveria ser a sensação. Seria muito gelado? Na escola, aprendeu que o mar era salgado. Imaginava um cozinheiro gigante jogando sal no mar e mexendo as águas com sua imensa colher de pau. Se havia algo que poderia apavorá-lo, era a ideia de nadar. A sensação de flutuar no vazio, enquanto esteve em coma, ainda o perseguia durante a noite. 
     Quando chegaram, seus tios e primos estavam na rodoviária, esperando-os. Os adultos abraçaram-se com bastante afeto. Algo que havia o intrigando foi respondido na hora: como eles iriam conversar? Ele descobriu então que seus tios também sabiam utilizar a linguagem de sinais. 

     -Oi, voce sabe falar? - Perguntou o garoto. Thiago, seu nome. Estava mais gordo do que vira nas fotos. Segurava a mãozinha de uma menina muito, muito pequena. Menino achou ela linda. Devia ter uns tres anos, sua priminha. 

     -Sei sim. Você é o Thiago né? A gente só se viu quando eramos crianças.-  Disse Menino. Ele estava retraido, desconfiado. Quando pequenos, brigavam muito. 
     
     -Ah, a gente não é muito mais que crianças né? Quantos anos você tem? Quatorze? eu estou com treze agora. E eu esqueci seu nome, me desculpa. 

     -É u pimuu? - perguntou a garotinha. Aprendia a falar, ainda. 

     -É Marissa, é o seu primo... 

     -Gabriel - Menino estremeceu ao ouvir seu proprio nome. Não se lembrava de quando fora a ultima vez que alguem havia se referido a ele daquele forma. Até os professores o chamavam de Menino. Seus pais assobiavam quando precisavam lhe chamar. - Quantos anos você têm, Marissa? 

     -Têis - disse a menina, erguendo quatro dedos da mão direita. 

     Os garotos riram da menina, que riu junto com eles. Menino não se lembrava de seu primo ser tão legal, e não sabia que tinha uma nova priminha. Talvez, suas férias não seriam  tão ruins. 
     Thiago levou Menino para conhecer a pequena cidade praiana. Era uma cidade pequena, pitoresca. O povo era simples, e tinha uma vida muito próxima da mediocridade. Se isso era algo ruim ou bom, Menino não saberia dizer. Em muitos aspectos, era muito parecida com Rio Solar. O cheiro de maresia e de peixe imperava na cidade. Menino achou aquele cheiro muito forte, mas as pessoas que viviam ali pareciam não se importar. No pequeno porto, barraquinhas vendiam frutos de pesca. Os homens descarregavam o que haviam pescado, consertavam as redes e limpavam os barcos. As mulheres limpavam os peixes e os vendiam nas barraquinhas. Havia gaivotas por todos os lados, alguns poucos albatrozes e mergulhões. 
     Quando chegaram na praia, Menino perdeu o ar. Era tão grande!! o azul se extendia por uma imensidão, era impossível ver um fim. Algumas ilhas se espalhavam antes da linha do horizonte, mas de resto, era um infinito azul, que por pouco não se misturava ao céu. 
     Menino colocou o pé na água gelada e se arrepiou. Era realmente gelada, mas era gostosa. Era diferente da água do rio ou da agua do chuveiro. Parecia ser mais... pesada. Brincaram com a areia, tentando fazer um castelo e saíram correndo quando viram meninas se aproximando. Não queriam ser vistos fazendo algo tão infantil. 
     Depois de alguns dias, Thiago puxou um assunto estranho com Menino. 

     -Quer ver o Homem-do-Saco? 

     Menino não entendeu a pergunta 

     -Como assim? 

     -O Homem-do-Saco! Nunca ouviu falar dele? Ele é um cara que anda por aí roubando crianças. Dizem que ele mora aqui agora. Ele rouba crianças  e vai embora. Pega crianças desprevenidas e coloca no seu saco, e depois ninguem mais ve ela! 

     -Mas porque a policia não prende ele? - perguntou Menino, sentindo um frio na barriga. 

     -Não sei. Muita gente diz que é mentira, que é só um mendigo que vaga pelas cidades. Mas também já ouvi falar que ele trabalha pra Deus, que ele pega uma criança em troca de perdoar os pecados das pessoas daquela cidade, como se fosse um imposto. Sabe o que é imposto? 

     -Sei... - Disse Menino, agora já longe em seus pensamentos. Ficou pensando se as pessoas de Rio Solar teriam muita coisa ruim pra purgar. O que será que aconteceria com as crianças? 

     Andaram até o centro da cidade, e Thiago apontou para o Homem-do-Saco. Menino não achou nada demais, era apenas um senhor, bastante velho e com roupas sujas. Tinha uma barba que descia até o meio do peito, mas era completamente careca. Cheirava mal. Ao seu lado, Menino viu um saco de pano sujo cheio de coisas dentro. Como primeira impressão, achou que tinha forma de braços e pernas de crianças, mas um segundo olhar revelou que eram apenas garrafas plásticas. O homem dormia debaixo de uma marquise, e parecia inofensivo. 

     Voltaram pra casa depois disso. Durante a janta, o rádio ficava ligado no jornal. Naquele dia, uma notícia deixou os garotos sobressaltados. Os adultos pareceram não dar muita atenção: 

"Nesta tarde um garoto desapareceu em nossa cidade. Os pais disseram que ele estava brincando na rua na frente de casa e simplesmente pararam de ouvi-lo brincar. A policia alerta para que qualquer um que tiver uma pista comunique as autoridades." 

     Os garotos se entreolharam, assustados. Ficaram até tarde da noite falando sobre o que poderia ter acontecido, e foram dormir com medo. Thiago logo se virou em sua cama e dormiu, mas Menino ficou pensando na historia do radio, lembrando da luta contra D'afolha, e não conseguia dormir. Ouvia seu primo ressonando, mas não conseguia pregar os olhos. Perto do amanhecer, o cansaço o venceu e ele afundou nas trevas da noite. 
     Perto do meio dia, ouviu barulhos em seu quarto. Vindo de algum lugar, sua tia gritava o nome de      Thiago. Levantou a cabeçae viu seu tio no quarto, vasculhando. 

     -Oi, tio, bom dia. 

   -Bom dia Gabriel. Voce não viu o Thiago por aí né? - perguntou, aflito. Fez um gesto com a cabeça, percebendo a bobagem em suas palavras. 

    -Não, ficamos conversando até certa hora, mas depois ele virou na cama dele e dormiu. Porque? 

    -Hoje pela manhã ele saiu pra comprar pão pra gente e não apareceu até agora. 

    Menino arregalou os olhos e sentiu o arrepio tomar conta de sua espinha.